sexta-feira, 14 de outubro de 2011

FLASH

Meses antes do dia 15 de Outubro 2010 minha mãe estava sentindo que não ficaria mais com a gente, ela me chamou e falou para mim assim:
- Filha você sabe que a mamãe te ama muito, sabe que você sempre foi uma boa filha, nunca deu trabalho na escola para a mamãe, nunca...
Nessa hora eu não aguentei e uma lágrima começou a descer, olhei para a tia Bebel queria que ela falasse para a mãe parar, eu não aguentaria mais nenhuma palavra de despedida...
- Mãe você não vai morrer... Para de tentar se despedir de todo mundo, eu te amo muito.
-Sua mãe esses dias começou com essa história de que vai morrer, fica falando isso para mim. –Falou tia Bebel.
- FILHA... – ela olhou dentro dos meus olhos. Era como se ela tentasse sem palavras falar para mim que eu sabia no fundo o que iria acontecer...
-Cuida do seu pai para mim, você sabe como ele é – seus olhos encheram de lágrimas.
Quando ela começou a falar comigo com esse ar de cena final de um filme, eu lembrei a história que a mãe contava sempre para mim do meu avô, pai dela.
Eu nunca conheci meu avô, quando eu nasci ele já tinha morrido aproximadamente uns seis anos atrás. O que me fez lembrar foi o quadro clínico da mãe que era idêntico ao do meu avô da história; Ela falava que ele sentia muita dor, e tinha uma barriga enorme, que tinha dores no estômago e pernas inchadas, tudo isso era como ela estava, o mais triste de tudo é que ela sabia que era a reta final da doença, pois ela foi à única filha entre sete irmãos, que foi visitá-lo quando ele estava doente, ela foi a única que viu a situação, o estado dele. Ele também se despediu dela... Depois da visita ela foi embora (nesta época meu avô não morava mais com minha avó Francisca, ele possuía duas famílias, é por isso que os outros filhos não foram visitá-lo), não demorou muito e a notícia chegou de que ele tinha falecido.
A primeira vez que a mãe entendeu que seu quadro clínico iria só piorar foi quando a barriga dela cresceu. Pois até então sentir dores é normal para quem tem rins, baço e fígado policísticos no grau moderado (existem três tipos de rins policísticos o leve: aquele que a pessoa vive normalmente e só descobre na velhice ou quando faz algum exame de ultrassonografia de abdômen total – o moderado: é o policístico que minha família possui. Esse você descobre entre 20 a 40 anos, nesse estagio os sintomas são diferentes de pessoa a pessoa, mas chegando nos 45 anos ele começa a piorar e atrapalhar mais ainda o funcionamento dos rins – o avançado: esse é descoberto na infância e a pessoa não consegue chegar a ter uma vida normalmente, pois a função dos rins começa a piorar muito mais cedo, neste grau a morte é mais rápida. O que mais se encontra na população é o grau leve).
Quando descobrimos que nos hospitais da região perto de casa não adiantaria levá-la começamos a ir para a Unicamp, minha mãe ficou cheia de esperança, pois os resultados que muita gente tinha obtido neste hospital era uma lista grande. A decepção veio logo... Lembro-me de entrar na urgência para vê-la e ela estava com os olhos arregalados; com cara de quem estava muito assustada.
- O que aconteceu mãe???
-O médico disse que eu posso ir embora.
Até então não tinha entendido o porquê dos olhos arregalados...
-Ótima notícia mãe, ele passou alguma coisa para tomar para barriga diminuir???
-Não.
Notícia ruim.
-Mas o que ele disse sobre a doença?
-Disse que quando eu sentir dor é para eu voltar, e a barriga eles vão ter que tirar a “água” quando ela tiver incomodando.
Foi nesta hora que ela começou a chorar... Não entendi o motivo de imediato, mas depois entendi que ela tinha se lembrado do que os médicos do pai dela tia falado, da decepção encontrada, não tinha mais jeito. Ela sabia disso. A história que ela acompanhou iria se repetir, só mudando os personagens.
Ver sua mãe chorando é muito ruim, a coisa mais triste é não poder fazer nada... Nada. Você se sente inútil sem utilidade, incapaz.
Enxuguei suas lágrimas... O médico nos liberou e ela se apoiou em mim para se levantar da cadeira, começamos a andar bem de vagar até o carro onde estava o restante da família.
...
Quando olhei de novo para a mãe deitada no sofá, segurando minha mão, tentando se despedir, percebi que tinha viajado nos meus pensamentos... Neste momento ela só olhava para mim... Dei um beijo na testa dela e me afastei um pouco para refletir sobre tudo que em poucos minutos tinha passado em minha mente.

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